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Fazer jornalismo no Brasil de 2020: um ato de coragem!

Fazer jornalismo no Brasil de 2020: um ato de coragem!

Em meio à mais expressiva e devastadora pandemia do século, o serviço prestado pelos jornalistas ganha destaque. Considerado “essencial”, o exercício do jornalismo é o que proporciona à população o acesso a informações que passaram por um crivo e por apurações junto a autoridades e especialistas. Um cenário pandêmico sem esses profissionais da imprensa, que se dedicam à busca pela veracidade, seria tão mais caótico, uma vez que a propagação de boatos ou fakenews, que já causa estragos, poderia provocar até mesmo um maior número de mortes.

Contudo, apesar da importância dessa categoria, o jornalismo vem sendo atacado por inúmeras frentes: seja por meio do descrédito, seja pelas precárias condições de trabalho e desvalorização profissional (que geram demissões e cortes de salários) e até mesmo pela violência cometida por líderes políticos e pelos próprios consumidores das notícias [1].

Trago, nesta publicação, uma breve reflexão a respeito da conjuntura atual no que se refere à relevância e às depreciações a nós, jornalistas. Entidades e sindicatos têm agido de modo a combater esse desrespeito à imprensa e precarização do trabalho; expõem números, lançam manifestos (como o #JornalistasSalvamVidas [2], por exemplo), cobram melhorias. É a forma que a categoria encontra para se posicionar diante dessas circunstâncias conturbadas e da necessidade, mais acentuada do que nunca, da atuação desses profissionais.

Para vocês terem uma ideia, em junho de 2020, a ONG Emblem Press Campaign (PEC) [3] contabilizou pelo menos 127 jornalistas em atividade mortos em decorrência da Covid-19, sendo que muitos desses faziam a cobertura da pandemia e quase metade atuava na América Latina.

Isso se explica justamente porque os jornalistas não têm a opção de “ficar em casa”, como preconiza a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os jornalistas precisam estar nas ruas para entender o contexto e compartilhá-lo com aqueles que têm a opção de se resguardar.

Mas, mesmo no front da batalha contra o vírus e a desinformação, sujeitos a riscos que envolvem, sobretudo, a própria vida e a vida de familiares, esses profissionais têm enfrentado, ainda, diminuições de seus rendimentos mensais [4] sobrecarga, suspensões de contrato [5] e demissões.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em pesquisa [6] realizada entre 20 de maio e 10 de junho, mostra que a pressão no trabalho aumentou consideravelmente durante a pandemia da Covid-19. 55% dos 467 entrevistados pontuaram o acúmulo de tarefas, a cobrança ostensiva por resultados e o descumprimento da carga horária máxima.

Além disso, embora 79% dos participantes do estudo tenham declarado que as empresas para as quais eles trabalham têm garantido condições de saúde e segurança, somente 17,5% desses jornalistas entrevistados disseram que a quantidade de equipamentos de proteção individual (EPIs) é satisfatória.

E se já não bastasse o coronavírus, há ainda um clima de ódio e desconfiança à categoria pairando no ar. As agressões aos jornalistas — praticadas até mesmo pelo presidente da República — colocam o Brasil na 107ª posição, em uma lista de 180 Estados, no ranking de liberdade de imprensa e de informação de 2020, estudo promovido pela ONG Repórteres sem Fronteiras [7].

Nas publicações que faço aqui, na Ucam Academy, abordo aspectos relacionados à profissão jornalista e não poderia deixar de apontar, também, essa questão. Convido-os a refletir sobre esse assunto.

O jornalismo, quando sério e ético, é o canal por onde se obtém informações que colaborem para a formação crítica da população, uma vez que expõe os fatos contemplando o contraditório. Reconhecer o trabalho desses profissionais, que também são heróis diante dessa pandemia, é o que todos podemos fazer a fim de vencer a ignorância e valorizar a vida. 

Ainda que a sociedade civil não tenha condições de mudar o cenário no que tange à precarização trabalhista, esse reconhecimento pode ser feito por meio da prática diária de averiguação: essa informação que compartilho nas redes sociais e aplicativos de mensagens é, de fato, verdadeira? E também por meio do respeito, sempre. Afinal, apesar de não estarmos no mesmo barco, enfrentamos a mesma tempestade. 

 

[1]https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/05/21/As-agress%C3%B5es-a-jornalistas-na-cobertura-da-pandemia

[2]https://fenaj.org.br/manifesto-jornalistassalvamvidas/

[3] https://noticias.r7.com/internacional/ong-afirma-que-covid-19-matou-127-jornalistas-pelo-mundo-02062020

[4]https://www.portaldosjornalistas.com.br/mais-veiculos-de-comunicacao-anunciam-reducao-de-salario-e-da-jornada-de-trabalho/

[5]https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/07/14/governo-edita-decreto-que-amplia-prazo-para-suspensao-de-contratos-de-trabalho-e-reducao-da-jornada.ghtml

[6]https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2020/06/pesquisa-covid-2020.pdf

[7]https://rsf.org/pt/brasil

[FOTO] New Africa/Shutterstock

Jornalismo e Comunicacão

UCAM Academy
Ulli Marques
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Jornalista e professora na Ucam EAD. Mestranda em Cognição e Linguagem (UENF), especialista em Literatura, Memória Cultural e Sociedade (IFF), bacharel em Comunicação Social e licenciada em Letras (Língua Portuguesa e Literaturas).

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