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A POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA EM TEMPOS DE PANDEMIA: COMBATE PRAGMÁTICO OU IDEOLÓGICO

A POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA EM TEMPOS DE PANDEMIA: COMBATE PRAGMÁTICO OU IDEOLÓGICO

por Letícia Kreile Leitão

 

Brasil diante da crise

O Brasil teve o privilégio de poder assistir e aprender com os outros países que sofreram primeiro com a chegada do Covid-19 e cometeram erros como Itália, Espanha e China. O Covid-19 chegou aqui bem depois e poderia ter sido controlado de tal maneira que não acarretasse em mais atrasos econômicos, mais infectados e mais mortes. No início, com decretos de governadores sobre a quarentena, parecia que o Brasil caminhava na direção certa em relação a tomar medidas pragmáticas para conter o avanço do vírus. Entretanto, ao perceber o impacto que a quarentena teria na economia, o presidente Jair Bolsonaro foi contra ao que foi recomendado pela OMS e sugeriu à população um isolamento vertical, que seria a quarentena somente das pessoas que pertencem ao grupo de risco. O presidente, entretanto, não considerou a situação atual em que o Brasil se encontra de extrema desigualdade social. Nesse caso, o isolamento vertical não seria eficaz.

O presidente também não seguiu recomendações de profissionais especializados na área da saúde ao alertar a população de que o vírus não era tão grave. Assim, devido a sua alta popularidade, muitos brasileiros seguiram as recomendações do presidente e facilitaram ainda mais a propagação do vírus. Por sua ineficácia e por, possivelmente, sobrecarregar o sistema de saúde, é importante ressaltar que o isolamento vertical foi substituído pelo horizontal em países como o Reino Unido. O Brasil já vinha perdendo sua credibilidade de país mais poderoso da América Latina e esse comportamento do presidente de não contribuir ou ajudar nos interesses e na segurança da população como um todo podia agravar ainda mais esse problema. Além da proposta do isolamento vertical, o presidente negligenciou diversas vezes a letalidade e o poder de propagação do vírus.

Bolsonaro, no início da chegada do vírus ao Brasil, emitiu a Medida Provisória nº 926, de 20 de março de 2020, dificultando o poder dos estados de restringir o movimento de pessoas. Em seguida, apresentou seu projeto de isentar igrejas e casas lotéricas de restrições às reuniões, o que facilitaria a aglomeração e, consequentemente, o contágio. Felizmente, nesses dois casos, as decisões do presidente foram anuladas pelos tribunais. Em diversas ocasiões, Bolsonaro foi contra o distanciamento social, aparecendo publicamente sem o uso da máscara e incitando aglomerações de seus apoiadores. Diante disso, mais uma ordem judicial se fez necessária para vetar uma campanha publicitária que o presidente tentou lançar sob o slogan “#OBrasilNãoPodeParar”.

Autoridades como o então Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e diversos governadores indicaram que a população deveria desconsiderar as ideias do presidente, porém, isso não foi o suficiente para que as ações do presidente não tivessem efeito. Uma pesquisa feita pelo Datafolha indicou que 76% das pessoas aprovam o tratamento convencional ao vírus que foi apresentado pelo Ministério da Saúde, em contraste com 33% que apoiavam o Bolsonaro. O resultado disso foi um crescimento absurdo e rápido no número de casos e mortes, chegando a 1 milhão de casos em 19 de junho e 100 mil mortes em 8 de agosto, justamente quando bares, restaurantes e praias voltaram a abrir.

Bolsonaro se pronunciou diante dos 100 mil mortos, misturando duas tragédias de causas diferentes e publicando em sua rede social a seguinte frase “Lamentamos cada morte, seja qual for a sua causa, como a dos três bravos policiais militares executados em São Paulo.”
           

A política externa brasileira diante da pandemia

Num momento de pandemia e crise global em dimensões sanitária, econômica e política, a atuação e a cooperação internacional dos Estados são fundamentais e indispensáveis para a prevenção, o combate e o tratamento das pessoas infectadas.

O ideal é que os Estados estabeleçam o diálogo e a negociação com as organizações internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros Estados. O Brasil antes da pandemia havia enfrentado grandes embates ideológicos e religiosos que influenciaram o comando do Itamaraty, mas diante da pandemia isso deveria ser retificado e as decisões do Ministério das Relações Exteriores deveriam ser pragmáticas e fundamentadas em dados científicos, especialmente diante da crise.

Até governantes como o Donald Trump, que inicialmente negligenciou o perigo à vida, passou a tomar decisões em defesa da população. Diferente do Brasil, que se destoa do resto do mundo, fazendo propaganda desde janeiro (chegada do Covid-19 ao Brasil) de uma visão contra a ciência. O Brasil tem se apresentado como um dos problemas no combate à pandemia global ao invés de atuar como propositor de soluções. O presidente Bolsonaro é o grande responsável por isso já que vem se aliando daqueles que desprezam os direitos humanos e o conhecimento científico. Mesmo os governos que adotaram esse mesmo papel falho no início da pandemia, reviram suas posições equivocadas ainda que, tardiamente, e se deram conta da realidade da pandemia. Já o presidente do Brasil, não foi capaz de fazer o mesmo, e até hoje não assumiu seus erros ou sequer mudou a propaganda contra o isolamento.

O então ministro da saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta, não compareceu às reuniões da OMS para discutir a pandemia. Além disso, o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, praticamente acabaram com a possibilidade de cooperação com a China, no que diz respeito a pandemia, ao criarem uma crise diplomática por reforçar discursos xenofóbicos. Enquanto o chefe de Estado minimizava a letalidade do vírus e Eduardo Bolsonaro fazia piadas e hostilizava a China nas redes sociais, outros países negociavam acordos com a China, país que possuía mais capacidade de ação contra o vírus.

O fruto desse posicionamento xenofóbico e a falta de capacidade de gestão diplomática trouxe danos à população brasileira. O Brasil acabou ficando em atraso para receber equipamentos chineses de combate ao vírus e teve que se resolver com as sobras das vendas chinesas para os Estados Unidos. O Brasil se tornou um problema de saúde global e virou as costas para a cooperação, colocando não só a sua população em risco, mas também o resto do mundo.

Em outubro, o presidente Jair Bolsonaro fez mais uma declaração problemática e xenofóbica envolvendo a China, quando afirmou aos seus apoiadores nas redes sociais que o Brasil não compraria a vacina contra o COVID-19 que está sendo produzida pelo laboratório chinês Sinovac. De acordo com o presidente, existe um “descrédito”, por parte da população brasileira com relação à China pois, segundo Bolsonaro, o vírus tinha vindo justamente de lá. O presidente garantiu aos seus apoiadores que a vacina chinesa não seria comprada por decisão dele mesmo, mesmo que fosse aprovada pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Nesse espaço de tempo, Jair Bolsonaro destinou cerca de 2 bilhões de reais às pesquisas da vacina de Oxford, que estaria no mesmo nível de testagem que a vacina chinesa, e que era composta de insumos farmacêuticos chineses, o que mostrou a clara xenofobia e o descaso pela ciência de Bolsonaro.

O contínuo alinhamento aos EUA e o desprezo à China declarados pelo governo atual podem custar caro ao Brasil pois o debate sobre o combate ao vírus não foi pragmático, e sim ideológico. O comportamento do governo de Bolsonaro deu espaço para a polarização política, ao mesmo tempo que impactou negativamente as relações exteriores do Brasil. O Brasil deixou de priorizar as práticas de cooperação internacional, especialmente os laços Sul-Sul e deu lugar à subserviência aos EUA. Com isso, pode-se prever que os efeitos da pandemia do Covid-19 mudarão as estruturas das relações exteriores brasileiras assim como as da sociedade.

 

Internacionalistas em Debate

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