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A consciência histórica e política no Brasil e a polarização política.

A consciência histórica e política no Brasil e a polarização política.

 

Neste artigo argumenta-se que os extremismos e polarizações políticas que no ano de 2020 é a norma do cenário público no Brasil é um passo necessário para o desenvolvimento intelectual do povo brasileiro. Fazendo uma ponte entre a importância da conscientização histórica e a consciência política no contexto brasileiro, analisando o estágio no qual estaria o “desenvolvimento intelectual democrático” e a relação direta entre o nível de analfabetismo (absoluto e funcional) com a conscientização política.

 


 

Consciência Histórica:

A melhor forma de entender um fenômeno é através do estudo da origem e o processo histórico que fez do fenômeno em questão o que ele é hoje. A partir desta afirmação, fica evidente a importância que o estudo da história tem no papel de compreender as interações humanas no tecido social e consequentemente, os fenômenos sociais. Sendo assim, quanto mais consciente for uma sociedade sobre sua história melhor preparada esta estará para lidar com o presente e, portanto, construir um futuro melhor.

Segundo o Historiador e filósofo Jörn Rüsen, existem quatro tipos de desenvolvimento da consciência histórica: O primeiro tipo é a “Consciência Tradicional”, o estado mais primitivo que se tem da interpretação histórica no qual a tradição vigente numa comunidade ou sociedade interfere diretamente sobre o presente, por exemplo, se sempre foi feito sacrifícios humanos ao longo dos anos e sobrevivemos até aqui, esta é uma atitude correta ou natural a ser tomada no presente. O segundo tipo é a “Consciência Exemplar” em que a história é interpretada de forma didática, ou seja, se um sacrifício humano aconteceu e naquela estação se teve uma boa colheita devemos repetir o ato, se não aconteceu, deixamos o ato de lado. O terceiro tipo é a “Consciência Crítica” em que começa a emancipação de certos valores tradicionais pré-determinadas, inserindo no exemplo dos sacrifícios, é impensável tomar a vida de uma pessoa para fins ritualísticos, mas nada impede que se faça uma reencenação sem o ato de violência por sentir-se parte daquele passado. Por fim, o autor denomina o quarto tipo de “Consciência Genética” em que existe a emancipação completa do passado, aceitando e contextualizando o que aconteceu dentro da dinâmica histórica, olhando o processo histórico sem impor nossas visões contemporâneas ao passado e portanto, sendo possível olhar a história da maneira mais objetiva possível. (RUSEN, 2006)

Partindo dessa tipologia criada por Rusen, analisaremos como estes quatro tipos podem ser interpretados como “estágios” que se desenvolvem ao longo do tempo e como a conscientização e interpretação histórica influencia os cidadãos em “Relação ao Raciocínio Moral”. Escolhemos esse aspecto de influência da consciência histórica por estar diretamente conectada com os rumos ideológicos e políticos de uma sociedade (ver tabela 1).

 

Analisemos primeiro o estágio tradicional da consciência histórica brasileira: Podemos encontrar valores pré-determinados sobre uma forma de vida comum válida na ideologia do trabalho árduo como resposta a “malandragem” que o Estado Novo de Getúlio Vargas, tentou impor aos brasileiros, ou seja, a única maneira “correta” de viver seria através do trabalho produtivo porque dessa forma o cidadão elevaria o país ao desenvolvimento (ARAÚJO E BARBOSA, 2016).

É bastante claro até mesmo no século XXI existir a noção de que as ciências exatas ou biológicas serem “úteis” ao passo que as pessoas que estudam ciências humanas são apenas professores ou que essa área não seria um importante aspecto da vida por não gerar capital imediato como a estrutura social capitalista impõe, portanto, não é coincidência o fato de que matérias escolares como a matemática, física, biologia e química terem mais “valor” que outras matérias como a filosofia, sociologia e história aos olhos da sociedade brasileira. Sendo assim, neste estágio da consciência histórica não há incentivos para um debate público sobre ideologias políticas ou mesmo de filosofia porque isso seria “vagabundagem”, para que perder tempo discutindo esse tipo de coisa ao invés de produzir, ou melhor, vender sua força de trabalho para ter uma “vida estável” e segura baseada na ordem e hierarquia social? Deste ponto de partida vemos fortes indícios do porquê o raciocínio moral tradicional dos brasileiros tende a ser altamente conservador. O menosprezo às ciências sociais resulta em um entendimento pobre sobre o mundo em que se vive, resultando no medo e aversão ao que é novo, elementos esses que são bases ao ultraconservadorismo.

O estágio exemplar é o estágio de consciência histórica que está presente nos dias de hoje no debate público brasileiro, visto que, o entendimento histórico é feito através de generalizações sobre o que foi o passado e que regularidades e princípios deveríamos seguir a partir de certas estruturas do passado. Um exemplo de debate público que se tem no Brasil é sobre o que seria “a família tradicional”, que são defendidas com argumentos do tipo: “pai, mãe e filhos sempre foram o normal, portanto, nada além disso pode ser considerado uma família”. Este argumento primitivo e generalizante é bastante presente para vários outros assuntos presentes no debate público o que cria uma polarização muito forte devido ao senso de reação ao diferente, o que impede uma discussão saudável em busca da verdade e resulta numa discussão onde o importante é ter a razão, independentemente se aquele argumento generalizante e simplista sobre um assunto procede ou não.

Apesar da consciência histórica democrática no brasil no momento estar vinculada ao estágio exemplar, a transição para o estágio crítico está acontecendo de forma muito rápida devido à dinâmica tecnológica de acesso à informação. Pessoas instruídas estão aderindo a ferramentas de divulgação que disponibilizam informação gratuita e de qualidade para toda massa popular ter acesso. Entretanto, essa dinamicidade da tecnologia como algo que possa ser usado de forma positiva acarreta, também, problemas que precisam ser combatidos.

O que está atrasando esse desenvolvimento são as desinformações de pessoas que parecem ser instruídas, mas que propagam mentiras e dizem aquilo que as pessoas querem ouvir, dando ao vírus do populismo uma nova cara mais forte e mais difícil de ser combatido em relação ao populismo tradicional. Portanto o combate às “fake News” devem ser a prioridade para o avanço do desenvolvimento da consciência histórica popular brasileira, é urgente que se façam campanhas contra esses influenciadores do caos e de instigar desde já, nas escolas a maneira de se fazer um verdadeira pesquisa, a terem consciência de que ver um vídeo ou lerem um artigo qualquer não significa verdade absoluta, e que as fontes e contexto são cruciais para a validade de qualquer argumento ou informação. No brasil espera-se chegar a um curso superior para que um cidadão aprenda a fazer uma pesquisa de qualidade, mas as “Fake News” que dão cara ao século XXI, não permitem o luxo de dispensar a metodologia de pesquisa como matéria obrigatória no Parâmetro Curricular Nacional (PNC) no ensino fundamental de forma didática de conscientização e no ensino médio de forma mais rigorosa.

São as próprias notícias falsas que perpetuam a noção de que as universidades são lugares de balbúrdias e que os alunos de ciências humanas são “vagabundos comunistas”, ou seja, pensamentos que com uma mínima noção de conhecimento e pesquisa poderiam entender que historicamente esses discursos significam nada menos o medo que o governante em questão tem daqueles que estudam de maneira séria a humanidade e que se mostram como maior obstáculo contra os abusos do poder ao transformar mera gente em agente pensante.

Sendo assim, somente através de rigorosas atitudes em relação às desinformações poderemos avançar a Consciência Histórica de forma democrática no Brasil até elevar-nos ao estágio de “Consciência Genética” em que a validade dos valores morais sejam temporais e corresponda `a valores do século XXI e não valores do século XIX.

Consciência Política:

Porque a consciência política é importante e porque devemos nos preocupar em democratizar essa consciência para toda a população e consequentemente a todas as classes sociais? A consciência política está diretamente ligada a ideia de saber a natureza da organização estatal e os interesses dos diferentes grupos que existem na sociedade civil como um todo para que o cidadão participe politicamente e vote conscientemente. Para isso, é crucial que existam dois fatores fundamentais para seu desenvolvimento: Uma imprensa livre e uma educação de qualidade.

A liberdade de expressão da imprensa é o motor que vai permitir a constante crítica das ações e reflexões sobre o Estado e sobre a sociedade civil. Para relembrar a tríade Dialética muito presente no idealismo alemão, a crítica serviria como a antítese frente a tese que está sendo posta e, portanto, chegar a uma síntese, que futuramente, se tornará a tese e o processo do espírito absoluto da razão humana seguirá adiante. Porém, O aspecto mais importante da imprensa é fazer da crítica e da informação algo que se dissemine a todas as camadas da população e não somente entre as elites e os intelectuais, porque é somente dessa forma que a consciência política poderá se incorporar numa sociedade, andando na direção contrária da história brasileira e formar uma consciência política constituinte ao invés de uma ideologicamente outorgada.

A educação é a ferramenta que cada indivíduo deveria dispor para desenvolver sua consciência de si, pois é através da simples (e ainda desafiador no contexto brasileiro) alfabetização que se permite o desenvolvimento de senso crítico para observar aquilo está sendo apresentado na sua realidade e através da reflexão buscar alternativas para os problemas que assolam o grosso da população, construindo uma democracia verdadeira que dá voz àqueles que nunca a tiveram. Portanto, a verdadeira democracia e a verdadeira consciência política brasileira somente se desenvolverá quando houver uma educação abrangente de qualidade para que possam surgir intelectuais em todas as camadas sociais, dando uma voz clara a todas as classes.

A consciência política no contexto histórico brasileiro:

Para contextualizar o desenvolvimento da consciência histórico-político popular no Brasil precisamos fazer o esforço de tentar quantificar o tempo que a maioria da população estivesse alfabetizada e com acesso a livre imprensa. A chegada dos portugueses ao Brasil em 1500 foi a exatamente 520 anos atrás, porém a consciência brasileira começou muito tempo depois já que a imprensa surgiu no Brasil em 1808 fortemente censurada, segundo Laurentino Gomes:

“Uma mudança de grande impacto foi o surgimento da imprensa, proibida no brasil até 1808. Ela mudou o ambiente intelectual e político do país e passou a disseminar e a debater as ideias políticas que chegavam da Europa e dos Estados Unidos. Nos seus primeiros 13 anos de funcionamento, a imprensa era submetida a três instâncias de censura [...] a censura caiu finalmente com o decreto de 2 de março de 1821.” (GOMES, 2010, p.75)

Apesar da liberdade de imprensa concedida em 1821, quem desfrutava do conhecimento e de debates era uma percentagem diminuta da população brasileira como aponta o primeiro censo sobre os índices de analfabetismo realizado no Brasil em 1872 cerca de 82,3% (ver tabela 2) dos brasileiros eram analfabetos. Seria apenas em 1960 que veríamos mais da metade dos brasileiros alfabetizados, onde a porcentagem de ainda analfabetos seria de 39,6% entre pessoas acima de 15 anos. Porém é necessário apontar também que foi nessa mesma década em que a censura de imprensa voltaria a assolar a imprensa brasileira com a chegada da ditadura militar em 1964 até 1985. Nesse contexto, seria possível dizer que a consciência política verdadeiramente democrática começou a partir de 1985 com a liberdade de imprensa e cerca de 70% dos brasileiros alfabetizados? É difícil responder a uma pergunta como essa, mas partindo do pressuposto de que a democratização do debate público popular com a maioria da população alfabetizada começou em 1985, isso significa que temos 35 anos de conscientização relativamente popular. Olhando por esse espectro, seria inimaginável que no começo do século XXI teríamos uma discussão política forte em diversas camadas da população e em todos os cantos do país, mesmo que seja um debate de baixa qualidade, já é um começo, um passo importantíssimo que elevará a consciência das futuras gerações brasileiras.

                                                                           Tabela 2

                                                    Fonte: (FERRARO, 2002) p. 34. 

 

Conclusão e perspectiva:

O fato é que pela primeira vez um povo que está historicamente inserido numa sociedade altamente hierárquica e segregacionista onde o fenômeno do coronelismo perdurou de certa forma até os dias de hoje em alguns lugares do país (ROMANO, 2018) encontrou sua liberdade de expressão. Liberdade para exprimir seus pensamentos carregados de paixões e poucas razões como “bandido bom é bandido morto”, liberdade para exprimir sua intolerância na forma de fervor religioso como “Jesus não aprova homem com homem”, liberdade para compartilhar achismos e mentiras em forma de fatos. Inevitavelmente a inserção dessa massa ignorante no debate público resultaria em um nível baixíssimo de discussão abrindo terreno para o avanço do populismo.

Mas é exatamente esse ponto crucial da história que nos interessa. Existe o debate (de baixo nível) onde antes não havia. São apenas 35 anos de liberdade de imprensa e população majoritariamente alfabetizada, ou seja, podemos concluir que o cenário aparentemente negativo da polarização política e ascensão de populismos é na verdade uma fase infantil necessária ao longo do processo de consciência histórica e política dos brasileiros que “acordaram” e começaram a perceber a importância da cidadania ativa.

 


Bibliografia:

RÜSEN, Jörn. Historical Consciousness: Narrative, Structure, Moral Function, and Ontogenetic Development. In: SEIXAS, Peter (ed.). Theorizing Historical Consciousness. Toronto: University Of Toronto Press, 2006. p. 63-85.

FERRARO, Alceu Ravanello. ANALFABETISMO E NÍVEIS DE LETRAMENTO NO BRASIL: o que dizem os censos?. Educação & Sociedade, Campinas, v. 23, n. 81, p. 21-47, dez. 2002.

FRIAS ARAÚJO, G.; DE SOUZA BARBOSA, A. CULTURA E IDENTIDADE NACIONAL NOS ANOS VARGAS: TENSÕES E CONTRADIÇÕES DA UMA CULTURA OFICIAL. Revista de Ciências do Estado, v. 1, n. 2, 21 nov. 2016.

ROMANO, Rogério Tadeu. O novo coronelismo. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 23, n. 5381, 26 mar. 2018. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/58766. Acesso em: 7 ago. 2020.

 

Internacionalistas em Debate

UCAM Academy
Arthur Chagas dos Santos
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Estudante de Relações Internacionais.

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