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Os desafios do jornalista HOJE

Os desafios do jornalista HOJE

Olá! Retorno para darmos continuidade à série de publicações sobre a “profissão jornalista”.

Nesta, tratarei dos desafios que envolvem o jornalismo contemporâneo.

É certo que, em todas as épocas, essa é uma profissão desafiadora, afinal a prática está diretamente relacionada a questões sociais, políticas, econômicas etc. que reverberam na vida dos cidadãos de modo geral. Ao lidar com pessoas — principalmente em uma perspectiva de influência e formação de opiniões — a responsabilidade é tão grande quanto os possíveis obstáculos.

Se no passado os desafios eram, por exemplo, relacionados às vendas, à publicidade, à interferência política e ao controle do pensamento social, hoje, somados a esses, vêm outros que exigem não somente a perspicácia, dedicação e ética do jornalista, mas, sobretudo, sua capacidade de adaptação a novas realidades.

Abaixo, enumero alguns dos principais desafios que um jornalista enfrenta hoje, mas, como toda crise pressupõe uma oportunidade, cito ainda as possíveis vantagens que podem advir dessas dificuldades.

DESAFIO 1

A ampla concorrência

É verdade que a concorrência é importante para a formação da opinião pública e para a democracia, mas, hoje, essa concorrência é potencializada pela facilidade com se pode criar um veículo de comunicação e isso pode prejudicar o “bom jornalismo” ou “jornalismo sério” e comprometido com os cidadãos. Basta abrir um site, ter um carro, uma câmera no celular, curiosidade e um patrocinador para se dizer jornalista. Assim, profissionais capacitados e jornais (digitais, televisivos, radiofônicos, impressos etc.) com credibilidade acabam dividindo espaço e, muitas vezes, perdendo-o para mídias pouco confiáveis e jornalistas que não se preocupam com a apuração, com a divulgação responsável e sequer com a ética.

OPORTUNIDADE

A diversidade de veículos de comunicação proporcionada pela facilidade de criação de um desses pode ser um desafio, mas também pode ser uma oportunidade de mercado. Muitos jornalistas têm investido na criação de blogs (ou contas no Twitter, Instagram, canal no YouTube etc.) em que publicizam suas opiniões a respeito dos fatos e esse tipo de informação, mais “pessoalizada”, têm atraído cada vez mais as pessoas que já não acreditam na “objetividade” e na “imparcialidade” jornalística. Isso pode ser observado bem nitidamente por meio da explosão de “influenciadores digitais” e “youtubers” que têm muito mais “seguidores” do que um jornal tradicional, com anos de mercado e que já foi, no passado, referência na área.   Os jornalistas profissionais de hoje podem encontrar nesse cenário cada vez mais competitivo um meio de tornar seu trabalho mais específico, voltado para um nicho particular e construído com originalidade.  

DESAFIO 2

O crescimento das redes sociais

Nos últimos anos, o conceito de “notícia” mudou bastante. Isso porque as chamadas “novas tecnologias da informação e da comunicação” tornaram-se partes indissociáveis do jornalismo que precisou se adaptar a essas mídias diversas. E nisso em que consiste o desafio. Hoje, poucos leitores/espectadores/ouvintes ainda se importam com o veículo pelo qual a notícia é divulgada; o que importa é, mais do que nunca, o conteúdo ou, muitas vezes, quem o divulgou (um amigo, familiar etc.). A era das pessoas que compravam jornais nas bancas ou esperavam pelo telejornal da noite está ruindo... Agora, o caminho é seguir determinado veículo no Twitter, no Instagram ou no Facebook e fazer parte de um grupo de notícias no WhatsApp em que qualquer pessoa que presenciou determinado fato pode compartilhar uma foto, um áudio ou um texto relatando o ocorrido. E além dessa mudança de canal e de forma, o crescimento das redes sociais ainda proporcionou a interação entre produtor de notícia e leitor inimagináveis nos tempos dos nossos avós, por exemplo. Os fatos ainda são transformados em notícias pelos jornalistas, mas são também atualizados constantemente pelos próprios leitores que, inclusive, são chamados por alguns teóricos de “jornalistas cidadãos” (estes que se diferem dos “jornalistas profissionais”).

OPORTUNIDADE

Se a divulgação de informações deixou de ser uma exclusividade dos veículos tradicionais e agora está nas mãos de todos, esses mesmos veículos tradicionais precisam abandonar a resistência à mudança e incorporar as novas tecnologias. O mesmo vale para os profissionais. Já não é suficiente saber fazer uma entrevista e escrever um bom texto, é preciso dominar as redes sociais, saber produzir conteúdos para diferentes mídias (cada rede possui uma linguagem específica) e, de preferência, entender a métrica por trás da disseminação das notícias. É exigido dos veículos a abertura ao diálogo, de modo a conceber o processo de informação de maneira mais interativa, e, dos jornalistas, a flexibilidade constante, uma vez que mudanças no cenário virtual ocorrem em alta velocidade.

DESAFIO 3

As fake news

Essa transposição dos veículos tradicionais para o jornalismo online e, principalmente, para as redes sociais ainda intensificou um problema antigo, mas que muitas pessoas acreditam ser recente: o fenômeno das fake news. Não é de hoje que notícias falsas são disseminadas. Os boatos são comuns desde tempos imemoriais! Acontece que a velocidade com que as informações são transmitidas na contemporaneidade devido à possibilidade de compartilhamento acabaram por tornar esse fenômeno mais potente e mais perigoso. Qualquer um pode criar um site, noticiar uma informação falsa e mentirosa e divulgar para as pessoas pelo WhatsApp de forma irresponsável, gerando um alcance tão grande, quanto catastrófico. E essa irresponsabilidade afeta principalmente àquelas pessoas que não têm conhecimento o suficiente para averiguar a veracidade daquilo que foi lido. Essa prática pode causar graves problemas como a difamação de uma pessoa ou de um grupo ou até mesmo contribuir para eleger políticos que se beneficiam da mentira para ganhar influência.

OPORTUNIDADE

A proliferação de notícias mentirosas acabou por criar um novo nicho no mercado e uma nova área de atuação para os jornalistas. Hoje, já existe o cargo de “checador”, isto é, aquele profissional responsável por averiguar se determinada informação é verdadeira ou não. Esses profissionais também averiguam se a declaração que um dado político disse em uma entrevista ou discurso (relacionada a números, por exemplo) são, de fato, concretos. No Brasil, duas agências especializadas nesse trabalho já se consolidaram no mercado: Agência Lupa e Aos Fatos.

DESAFIO 4

A falta de credibilidade

Os três desafios citados anteriormente acabam por gerar esse 4º desafio: a falta de credibilidade. Se hoje qualquer um pode se dizer “jornalista” e se as pessoas acabam por optar obter informação em veículos menos formais dos que o jornal, a televisão e o rádio, o jornalismo sofre as consequências dessas transformações por meio da perda da confiabilidade. Crises políticas também intensificam esse problema, uma vez que muitos veículos podem ser “cancelados” (usando uma terminologia bastante pós-moderna, rs) por não se adequarem à ideologia daquele sujeito ou do grupo do qual ele faz parte. Acreditar, em meio a tantas fake news que circulam nas redes, tornou-se uma prática cada vez mais “desconfiada”.

OPORTUNIDADE

Desde sempre, o que diferencia um jornalista de um simples curioso e criador de boatos é a apuração, a investigação e a ética. A possível falta de credibilidade gerada pelas novas tecnologias só se torna realmente um problema caso os jornalistas profissionais se eximam de sua função essencial: o compromisso com os cidadãos. Em um mundo em que informações-mil são divulgadas, o papel do jornalista (seja ele um “checador” ou mesmo um repórter) é, justamente, verificar se aquilo é verdade por meio da escuta de todos os envolvidos. É nessa responsabilidade que reside a profissão jornalista antes, hoje e sempre. Além disso, esse desafio ainda coloca em voga a necessidade de mudar o jornalismo descritivo, que reproduz a falsa ideia da isenção, para um jornalismo mais explicativo, de opinião e que tenha “a cara” do jornalista ou do veículo, proporcionando, assim, o retorno da credibilidade.

DESAFIO 5

A redução de vagas para empregos formais

Todos os desafios pontuados até aqui acabaram por criar este último. Empresas têm perdido o interesse de divulgar suas marcas em jornais, rádios ou canais de TV tradicionais uma vez que as redes sociais apresentam-se como alternativas mais rendáveis, melhor quantificáveis e, muitas vezes, mais “baratas”. Assim, com a perda da publicidade, esses veículos acabaram por perder parte do lucro e precisaram “enxugar” as redações, diminuindo o número de vagas de emprego e até mesmo demitindo profissionais renomados. Os profissionais que conseguiram manter seus empregos tiveram, então, de multiplicar suas funções para dar conta de um trabalho que, antes, era dividido com outros colegas. Já aqueles que perderam seus postos, têm cada vez mais dificuldade para se inserir no mercado novamente. A saída de muitos tem sido abrir mão de vínculos e benefícios trabalhistas para atuar como “freelances”, por exemplo.  

OPORTUNIDADE

Como já vimos, fazer jornalismo hoje é muito diferente de fazer jornalismo no passado. Assim, seria estranho pensar que a estrutura contratual dessa profissão seria a mesma. De fato, os benefícios trabalhistas que um contrato formal de emprego nos dá proporcionam certa segurança, mas, como essas transformações são inevitáveis, é preciso encontrar nelas alternativas também benéficas. O empreendedorismo, por exemplo, pode ser um caminho promissor e até mesmo a função de “freelance” têm suas vantagens, como a liberdade para escrever sob diferentes vieses e até mesmo o melhor gerenciamento do tempo, uma vez que permite que o trabalho seja feito fora das redações/empresas, sem a necessidade de se cumprir uma carga horária fixa.  

 

Essa reinvenção não é uma exclusividade da profissão jornalista. Todas as áreas, todos os mercados vêm enfrentando transformações na contemporaneidade.

Pontuei aqui alguns dos desafios mais comuns e  oportunidades mais evidentes no jornalismo, mas pode ser que haja outros, por isso é importante que o profissional faça exatamente o que se espera dele:

apure, ouça, absorva e se adapte!

 

Espero que tenham tido alguns insights lendo este texto.

Em breve retorno com mais um assunto relacionado à nossa profissão!

Até mais!

UCAM Academy
Ulli Marques
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Jornalista e professora na Ucam EAD. Mestranda em Cognição e Linguagem (UENF), especialista em Literatura, Memória Cultural e Sociedade (IFF), bacharel em Comunicação Social e licenciada em Letras (Língua Portuguesa e Literaturas).

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